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Porque palavras não se falam... se Vomitam

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Gelo de sangue



Aqueles passos não faziam sentido, jamais Trevy havia pensado que estaria nessa situação, sentia um gosto adocicado na boca, porém com um nó amargo na garganta. Era como se tivesse se libertado de amarras que carregava toda a vida, mas também sentia como se isso fosse errado, tivesse quebrado as regras e não soubesse por qual caminho seguir a partir de agora.

Sua cabeça estava zonza, e ao invés de a chuva que lhe caía nos ombros ser gelada ela queimava como fogo, como se os pingos que rolavam até o chão entrassem em sua pele e puxassem o seu sangue para fora, fazendo ferver o líquido de suas veias. 

Se refletisse friamente, na verdade ele já havia pensado estar nessa situação, certamente não com tantos detalhes físicos e com toda a energia pesada que passava pelo seu corpo naquele momento, mas ideias semelhantes já haviam lhe passado pela cabeça várias vezes. Naqueles instantes em que ele pensava em vingar-se de alguém ou simplesmente usar as medidas mais extremas para se sentir melhor em relação a sua própria vida. Chegava a achar que seria doce sentir uma das milhares de vidas inúteis que reconhecia, desaparecendo através das suas mãos. Naqueles momentos em que ele percebia a sujeira do sistema, e notava que os caminhos do mundo não faziam sentido com o rumo que tomavam.

Caminhar definitivamente lhe fazia bem, levando em consideração toda a eletricidade que parecia percorrer seus músculos, começava causar uma enorme vontade de gastá-la ainda mais, repetindo o que havia feito. Felizmente a chuva havia se tornado tempestade, e ele não conseguia ver os rostos das poucas pessoas que passavam por ele, assim a vontade de transformar a sua energia em morte novamente, também era frustrada. 

A água estava finalmente ficando gelada, e seu corpo não tinha mais os músculos enrijecidos como a pouco, ao ponto de conseguir soltar a faca que segurava nas mãos. Em meio a tanta tempestade ela já não tinha mais sangue, mas quando Trevy percebeu que ainda a possuía nas mãos não conseguiu segurar por mais nenhum instante. E simplesmente a soltou ,sentindo em seu coração o memento em que chegou a calçada, dando com a ponta no chão e caindo silenciosamente.

Ele soltou a faca, não por imaginar o que ela havia acabado de fazer, nem pelo sangue que acabara de passar pela sua lamina, mas por lembrar as mãos a quem ela pertencia no instante em que ele a pegou. No instante em que reagira ao assalto. O garoto que a portava provavelmente não tinha mais que seus 17 anos, ainda realmente um garoto, possivelmente não teve muitas oportunidades de tornar-se alguém respeitável na vida, e talvez até precisasse do dinheiro de Trevy para a sua sobrevivência.

Mas isso não lhe importava, finalmente ele havia sido atacado por alguém, atacado de verdade, atacado pelo mundo, pelo sistema, e teve pela primeira vez na sua vida a chance de fazer algo, de quebrar as regras, de destruir uma rede de realidades que o trancava. Ele teve a chance de exterminar uma consequência do mundo, que havia se transformado em mal para aqueles que como ele, tentavam sobreviver se esquivando do peso da realidade maldita.

Ele havia matado.

Há pouco mais de 8 minutos atrás, a cerca de 42 segundos após conhecer sua vítima, o tempo mais irreal da sua vida, onde horas haviam se passado a cada segundo...

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