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Porque palavras não se falam... se Vomitam

sábado, 12 de maio de 2012

Sutil como uma sombra


Enquanto caminhava, tinha a sensação de que mais ninguém vivia ali, com exceção da névoa e de algumas corujas que pareciam anunciar a solidão, dava aquela impressão de que o destino para onde ia nunca chegaria. Que cada uma daquelas lâmpadas dos postes ofuscadas pela umidade, seria acompanhada de uma eternidade delas, todas iguais, passando pela sua cabeça e brincando com sua sombra. Que o persegue e o ultrapassa até morrer embaixo da próxima lâmpada, e perceber outra vindo logo para lhe ultrapassar de novo.

Por um instante voltou à sua cabeça uma imagem, que pensou ter já esquecido a muito tempo. A sombra do seu cãozinho, nos tempos em que não precisava caminhar sozinho, e não conseguia ter a sensação de estar sozinho mesmo que estivesse. 

Estava com seus seis anos de idade, e ainda não tinha noção do tamanho do mundo, e do quão sozinho poderia ficar em um lugar tão cheio de pessoas. A lembrança do cão foi seu primeiro contato com o início de uma ausência. Kófi era pequeno, com pelos enrolados e cor de café com leite, não se podia dizer que tinha alguma raça definida,  por dias  estava fugindo do seu canil, o canil que ficava ao fim do terreno, no canto ao lado da macieira, era grande e cercado por uma tela espeça. Da ultima vez que fugiu, Kófi voltou com arranhões nas costas, havia encontrado algum cão de rua que não simpatizara muito com ele, seu pai resolveu amarrá-lo com a velha corrente para amarrar cães, e o fez dentro do canil até encontrar a forma que Kófi utilizava para fugir.

Isso foi pela manhã, era dia de ir ao dentista, e no início da tarde os dois saíram, foram ver Dr. Lenni, e passar por mais uma seção de tortura após ler os HQ’s do Homem Aranha na sala de espera. Como já era de costume, saiu da sala com uma bexiga modelada em forma de cachorro, e seu pai resolveu passar na livraria comprar o mais novo catálogo de jardinagem, foi uma tarde conturbada, com cães de bexiga, livros, e antigos amigos de seu pai encontrados ao acaso conversando por horas, e perguntando como estava sendo a vida depois da faculdade.

O entardecer já havia avançado, e as luzes estavam começando ser acesas na vizinhança quando chegou em casa. Foi correndo para os fundos soltar Kófi e convidá-lo a brincar com seu novo amigo de borracha. Foi então que a imagem da sombra lhe gravou a memória. Kófi havia tentado fugir novamente enquanto não estavam, subiu na própria casinha e pulou por cima da tela, só não imaginava ele que a corrente para amarrar cães não era tão grande ao ponto de deixa-lo alcançar o chão.

Kófi estava morto, enforcado pela própria corrente,  ainda com os olhos abertos e sem expressão, e caprichosamente a lâmpada externa do canto da casa criava uma sombra enorme no muro, com a imagem de Kófi pendurado por uma corda com as patinhas enrijecidas, e foi essa a imagem que Ben lembrou-se ao apostar corrida com suas sombras entre a neblina. Dele próprio, segurando o cãozinho de bexiga vermelho, e vendo a primeira imagem da morte estampada em preto e branco no seu muro.

Essa lembrança tomou-lhe o resto do caminho, e principalmente a comparação entre a dor que não sentiu naquele dia, quando perdeu o único e verdadeiro amigo que teria. Continuou entre as lâmpadas e a neblina, e seu apartamento parecia nunca chegar. Queria Kofi caminhando com ele agora.

Possivelmente a parte 4

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