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Porque palavras não se falam... se Vomitam

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ela não acreditava nos mortos



Apesar da nova pintura, o amarelo apático da parede não conseguia esconder totalmente as sombras do velho papel por baixo, algo como flores arredondadas, ou apenas coisas derretidas, em forma de sombra sob o novo amarelo. A janela, ainda de madeira, dava de frente para a lua, naturalmente, e era a única luz que se passava para dentro, formando o quadrado iluminado que atingia a parte de baixo da cama. Enquanto ela dormia...

Velhas histórias não a amedrontavam, e não acreditava nos mortos. Sua primeira noite no lugar era de certa forma especial, em seus 25 anos tinha uma casa só sua, um quarto só seu, e podia sonhar com o que quisesse aquela noite. E era por isso que as velhas histórias dos mortos que ali rondavam não a abatiam, afinal, batalhara para ser quem era e ter o que acabava de alcançar... Aquele quarto. 

Como gostava do ar da noite, mantinha a janela aberta, o que dava a impressão de que a luz da lua invadia ainda mais o quarto, e fazia com que o vento compusesse uma música ao bater no canto da janela, uma música que lembrava o livro de Hitchcock caído no chão, o livro que ela tentara ler até adormecer.

Em um ponto do tempo, imensurável no incontável peso da noite densa, a ponta esquerda de baixo do colchão, próximo aos seus pés, como que levada pela luz, levitava vagarosamente. O extremo da ponta começara a se dobrar enquanto levitava, e o vento soprava mais forte no canto da janela, a música soava mais tenebrosa, e levava o canto superior direito a repetir o feito do oposto. Levitava sutilmente, enquanto a garota incondicionalmente rolava, expondo seu ombro de pele sardenta, deixando a cabeça próxima ao canto que ainda não havia se movido, em diagonal ao quadrado do colchão. Em um milésimo de segundo, os cantos que levitavam se unem. E ela acorda em meio a uma imensidão de falta de ar.

Presa, por entre o colchão, enrolada no seu lençol azul que ganhara da mãe ao se mudar, debatendo as pernas, que era o que ainda podia mover, enquanto sentia o peso da morte a esmagar sua carne. O vento de um fim de mundo soprando como nunca havia antes, e o som estridente enquanto a janela de madeira se fechava e quebrava como em um soco. Coisas caindo da sua cômoda, e as roupas do guarda-roupa vindo ao chão junto com ele, e mais barulho.

E mais força comprimia o colchão, o travesseiro lhe tapava a o rosto nesse momento, e as narinas ao puxar o ar, sentiam apenas cheiro de mofo, de sujeira e morte.  O colchão agora era um mundo a esmagar seus ossos, sentia como se algo lhe estourasse os pulmões e cuspia sangue sem saber de onde vinha, as manchas começaram a transpassar pelo travesseiro, e o seu corpo já se tornara apenas um peso, e agora, ela acreditava nos mortos...

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