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Porque palavras não se falam... se Vomitam

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Uma breve anotação



Confesso que estou cheio de textos pela metade, páginas com palavras esquematizadas para começar grandes histórias, universos enormes na cabeça que surgem enquanto caminho... Mas nada consegue se concretizar, tomar forma e ganhar finais. Acho que esse é um grande problema, as coisas já não conseguem mais ganhar grandes proporções. Não apenas para mim, mas para todas as pessoas.

Não sei se acredito na criação de grandes obras, nem mesmo sei se acredito nas medianas. As pessoas possuem cada vez mais tempo ocioso, e cada vez acreditam ter menos tempo para prestar realmente atenção nas coisas, observar e saborear o mundo com calma. Tudo anda muito rápido, e eu começo a me perder quando preciso ir longe em algo que eu pense em escrever, e acredito que quem vier a ler se perderá com facilidade ainda maior.

As pessoas estão envelhecendo muito rápido, dando os primeiros passos muito rápido, se preocupando com dinheiro muito rápido, com amores muito rápido, ficando adolescentes muito rápido, ranzinzas muito rápido, e seu espírito morre com ainda vários anos de vida pela frente.

Portanto, achei interessante deixar essa anotação aqui, um texto curto e sem utilidade, para uma geração que esta cada vez mais próxima da morte sem ao menos ter vivido.

Espero que a definição tenha alguma ligação racional com o fato de eu estar ficando sem colocar ponto final as coisas que começo.

sábado, 3 de novembro de 2012

49 dias:



Algumas pessoas pensam que o fim precisa necessariamente ser rápido, doloroso e arrebatador, quando ouvimos que Deus criou o universo em um determinado numero de dias e no outro descansou não paramos pra pensar que o fim deste possa também aconteceu dessa forma, dessa cruel forma. As coisas não precisam ser rapidamente destruidoras, não precisam causar pânico interminável e aniquilar tudo o que surge a frente.

 fogo tende a queimar cada vez mais até que seja parado, e o próprio calor que este emana seca seus próximos alvos e o ajudam a queimar mais rapidamente e de forma mais catastrófica. Mas o fim de um planeta não precisa ser como o fogo, ele pode ser como um matador frio, que mostra suas armas e espera o olhar de pânico da sua vitima.

Mais um dia se passou, conforme os sábios anunciaram ainda restariam 49, pedras caiam do céu, máquinas estavam perdendo suas propriedades físicas, e os céticos ainda resistiam bravamente enquanto o universo tentava continuar sua vida de forma comum, se adaptando as poucas novas regras do jogo da vida... E o caos do fim estava lá, mostrando apenas as primeiras de suas armas, mas parou para descansar um dia, pois os gritos de pânico que se seguiriam fariam tudo valer a pena para o caos, e ele teria prazer em calar cada um dos gritos antes ao fim de tudo... Ainda teriam mais 49 dias para que os choros pudessem aumentar e as esperanças pudessem ser mortas lentamente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

50 dias:



As luzes brancas passavam rápidas de mais pela sua visão para que fizessem sentido, luzes retangulares do teto do hospital, tão clichês quanto sombras nas portas próximas ao suspense quando se trata de cinema, mas Ana não conhecia o método hollywoodiano. Ela apenas sentia a uma dor opaca com tons de cinza girando em sua cabeça. Havia caído algo nela, algo que não sabia ao certo o que era, assim como poucos sabiam quando elas começaram a surgir do céu.  Algumas pedras estavam caindo, a primeira (a que atingiu Ana) surgiu sorrateiramente naquela manhã, talvez permanecessem caindo assim nos próximos 50 dias.

Não eram exatamente pedras com fogo como nos cinemas, seria um clichê a mais na sua história de vida que em 26 minutos seria história de morte, a garota de nove anos tivera uma veia importante em algum lugar qualquer do seu corpo que rompeu com o baque, e como não podia ser diferente não passaria dos “50 dias para algo”.

Pedras continuavam a cair dispersas e com diversos tamanhos,  aquele dia se soube de casos no Mississipi, Volta Redonda, Akita, além de outras cidades pelo mundo que tornariam esse relato cansativo, lembrando listas de mercado para compras de sábado. Não demorou muito para que começassem a ser guardadas, comparadas com objetos, animais, artefatos, matar gente, tornarem-se objetos religiosos e tudo que se espera em casos que fogem ao comum do planeta terra. 

Se nunca tivesse chovido antes, a primeira chuva no mundo seria chamada de santa, demoníaca, corrosiva, teriam pessoas sendo curadas com a água ou correndo dela como se fosse comer sua carne... As pedras não eram diferentes, a diferença é que ao contrário da chuva, essa não tinha explicação, mas permaneceriam caindo dispersas pelo mundo nos próximos 50 dias, matando pessoas ao acaso ou simplesmente se enterrando nas areias de desertos ou na neve do ártico.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

51 dias:



A ultima vez que Ana havia visto aquilo, ou pelo menos pensara ter visto, foi quando a professora passou na escola um vídeo de trânsito, onde mostrava de forma bem explícita (até de mais para sua idade) os perigos quando se anda em alta velocidade... Carros cujos motoristas tinham suas cabeças vendo o corpo se afastar e girando no ar até cair no chão abandonadas depois da batida selvagem contra outros carros.

Nesse momento, ela estava olhando a cabeça do taxista no chão, próxima ao cão que dormia indiferente ao engavetamento que acabara de ocorrer na sua frente. Mais tarde ela saberia o que é um engavetamento, ouviria quando sua mãe estivesse conversando com a garota do mercadinho, assunto que logo seria intercalado junto a menção dos 51 dias que faltavam para algo ocorrer... Ou que as pessoas esperavam a ocorrer.

Na verdade ela não fora a única a se deparar com automóveis tendo descontroles mecânicos, a onda de coincidências envolvendo motores, metal e objetos movidos a combustão descontrolados matando gente, acidentalmente varria o norte da Espanha bem como o sul, o leste, o oeste e possivelmente se igualava no restante do globo terrestre.

                Da mesma forma um acidente envolvendo duas carretas que ultrapassavam o sinal vermelho em sentidos opostos e ao mesmo tempo, sem freio e super aceleradas,  transformariam um pequeno automóvel azul em sanduíche de ferro com carne no norte da Bolívia, o pobre senhor que compunha a comparação gastronômica dentro do veiculo era conhecido como J.R. E seus vizinhos comentaram durante o dia, que alem do mau humor habitual do pobre senhor, naquela manhã ele não parava de dizer aos quatro cantos como um maluco, que eles deviam aproveitar seus 51 dias, e aguardar com prazer observando as peças que o destino ainda traria nesse tempo... Tempo que pra ele não durou o esperado.

Ana não sabia muito sobre isso, uma garota de 9 anos mal sabia o que era o planeta terra, e o quanto Deuses podiam nos pregar peças de tempos em tempos... Muito menos teria noção sobre superstições baratas envolvendo datas.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

52 dias:


52 dias e tudo parecia calmo. Algumas tragédias na TV, nada fora do comum para um planeta que já passou por tantos maus momentos. E agora a TV mostrava apenas mais algumas mortes horríveis, algumas mortes não tão horríveis se assim possível for, algumas vidas horríveis, alguns espelhos horríveis...

Halloween, ou dia das bruxas por aqui, ou... Bem, não tem importância, o interessante é imaginar o que viria após esses 52 dias, ou durante eles... Pelo menos isso era o que J.R. pensava. Os últimos 52 dias depois de apenas 78 anos que já vivera. 

Passara por tantas coisas, suas retinas acompanharam guerras, bombas, tragédias naturais, tragédias humanas, lera coisas ainda mais antigas a respeito do quanto esse planeta já sentira de fúria e destruição, alguns eram mera mitologia barata, outros ainda não se sabe. Ele se perguntava o que teria de especial depois desses 52 dias, o mundo já havia resistido tanto que sinceramente não entendia como poderia cair, ou voar, implodir ou qualquer que fosse a denominação do que estava por vir.

Estava assistindo o jornal, como diariamente fazia, e se perguntava o que deveria fazer até o fim de tudo. Ficar com a família? Bem, seu cão sarnento Barney era a única família que restara. Amigos? Não havia além dos bêbados do bar cuja única imagem que havia na sua mente era de pessoas desacordadas sobre mesas marrons.  Amores? Já não amava nem a vida como deveria nos dias de hoje... Por fim, como um rasgo em meio a esses pensamentos pegou no sono... Enquanto sua mente viajava pelas estrelas que poderiam cair sem mais nem menos... Restavam ainda 52 dias.
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