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Porque palavras não se falam... se Vomitam

domingo, 15 de maio de 2011

Ela ainda não chegara


Sentou-se na cadeira de madeira, daquelas de armar, tão pouco confortável, olhou o outro lado da rua, a vitrine reluzia as roupas com tons vermelhos, os manequins brancos com seus casacos e camisas vermelhas de inverno. Assim como a imagem da vitrine, as folhas amareladas passando da praça para o outro lado da rua deixava clara a imagem do inverno em seu início. Contudo, essa imagem nem seria necessária, afinal o vento cortava o rosto ao meio, em um frio seco e confortável, o vento de inverno. As pálpebras gélidas ao tocar umas nas outras davam a impressão de que seriam minutos frios até que o seu café chegasse, mas ainda assim ficaria ali, não entraria para se esconder do frio, muito menos perderia aquela sensação de beber o seu café em meio ao silencio que o frio trazia à rua pouco movimentada.

Ela chegaria logo? Bem, ainda assim ficaria ali, mantendo a temperatura do corpo com o casaco cinza tímido e clássico, com botões claros e textura riscada, e o café que ainda não tocara. O vento ainda estava presente, brincando como um maestro embriagado, mudando de direção e intensidade de forma indecisa o tempo todo, mas ainda assim trazendo o frio cortante.

Dois garotos passavam de bicicleta, com seus moletons com cores fortes, dez anos de idade, se isso, pedaladas apressadas e tímidas gargalhadas de criança. O senhor na mesa a frente não parecia se importar com o frio, assim como ele. Seus cerca de sessenta anos já teriam lhe mostrado frios muito mais rigorosos. Como na época em que precisava levantar cedo para fazer seu café no fogão à lenha, agora aquele vento de inverno não se comparava ao de outros tempos.

Ela ainda não chegara, e ele ainda não tocara no café já parado à algum tempo na mesa. O cão negro, com o pelo surrado e sujo corria atrás da sacola branca que acompanhava o vento, e se aventurava entre os poucos carros que passavam na rua, o olhar do cão não os notava, assim como a sacola não sabia qual a forma mais sensata de se arriscar, e assim se foram, até sumir na neblina que começava descer.

Agora, em meio a essa neblina, um casal passa ao seu lado, abraçados, dividindo o mesmo calor, com passos curtos e ensaiados, como um... Casal. Suas roupas com tons pastel e blusas com texturas xadrez combinavam com os cabelos despenteados, e a neblina romancista. Beijos acalentadores.

Estava a muito tempo ali, e ela ainda não chegara, e ela não chegará, e ele se da conta de que ela não existe. E se existe, ainda não sabe que ele a espera. É vencido pelo frio, levanta-se, arruma o casaco nos ombros, e segue o casal com a cabeça baixa, até ser vencido pelos passos, e se perder na neblina. De um entardecer de inverno.

E o café está lá, sem ser tocado, e agora tão gelado quanto o vento ríspido. Sozinho.

6 comentários:

  1. ótimo o texto. parabéns

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  2. Adoro o jeito que vc escreve Cleber! Parabéns, adorei o texto. Sempre acompanho o Blog de vc's. Beijo :**

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  3. E ela espera. Por ele e pelo café. Pela neblina e pelo frio. Espera...
    Questão de tempo.

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  4. A magia das estações frias, a dor da solidão tão conhecida...
    Adoro quando você escreve.

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  5. adoramos o seu blog e estamos seguindo. Segue o nosso tbm? http://imperfeitosrbn.blogspot.com/

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